Um estudante paulistano transformou a inspiração de uma viagem educacional em uma ação concreta que está conectando comunidades ribeirinhas isoladas. A história de Eric Bartunek mostra como determinação, parcerias estratégicas e tecnologia podem enfrentar um dos maiores desafios da educação brasileira.
A desigualdade educacional no Brasil tem muitas faces, mas poucas são tão marcantes quanto o abismo digital que separa as grandes cidades das comunidades mais remotas da Amazônia. Enquanto alunos em centros urbanos debatem os impactos da inteligência artificial, milhares de estudantes ribeirinhos sequer conseguem carregar uma página web para pesquisar um conteúdo escolar.
Foi justamente essa realidade que um jovem de 17 anos, Eric Bartunek, decidiu transformar. Em uma jornada que começou com uma simples constatação e terminou em uma conversa com uma das executivas mais poderosas do mundo da tecnologia, Eric articulou a doação de antenas da Starlink, da SpaceX, para conectar 140 escolas em comunidades isoladas da Amazônia.
Da Inspiração em Sobral à Realidade Amazônica
A semente desse projeto foi plantada em 2022, durante uma viagem a Sobral, no Ceará, organizada pela Fundação Lemann. Aos 13 anos, Eric visitou escolas públicas da cidade que é considerada uma referência nacional em educação. Ele ficou impressionado ao ver que os alunos ali aprendiam uma matemática muito parecida com a que ele estudava em sua escola particular em São Paulo.
“Fiquei impressionado com a sensação de que a escola era realmente o lugar mais importante da comunidade”, relataria Eric mais tarde. Esse modelo bem-sucedido em Sobral levantou uma questão crucial: se era possível ter educação pública de qualidade no interior do Nordeste, por que não em todo o Brasil?
A resposta começou a tomar forma quando Eric participou de um projeto do Instituto PROA na Amazônia. Lá, o contraste era brutal: escolas ribeirinhas muitas vezes só eram acessadas por barco e não tinham qualquer conexão com a internet. Professores que também atuavam como gestores e até cozinheiros precisavam viajar dias de barco para resolver questões administrativas básicas.
O diagnóstico ficou claro: nas regiões mais remotas da Amazônia, a exclusão digital era um gargalo crítico que mantinha escolas e comunidades inteiras “fora da rede, fora das decisões”.
A Busca por uma Solução Viável
Com uma veia empreendedora estimulada em casa — seu pai, Florian Bartunek, é sócio-fundador da Constellation — Eric começou a pesquisar soluções técnicas. As opções tradicionais se mostravam inviáveis: fibra óptica não chegava a essas localidades, o sinal de rádio era instável e o 4G simplesmente não existia em muitas áreas.
A alternativa que restou foi a internet via satélite. Entre as opções disponíveis, a Starlink, da SpaceX, destacou-se por sua tecnologia de satélites de baixa órbita, capaz de oferecer conexão de alta velocidade mesmo nas regiões mais remotas.
Inicialmente, Eric pensou em levantar recursos dentro de sua própria rede para conectar algumas escolas. Mas sua ambição cresceu. Ele começou a buscar parceiros para escalar o projeto, inspirando-se inclusive na biografia de Elon Musk, que mostrou que mesmo pessoas jovens poderiam gerar impacto significativo.
O “Pitch” que Conquistou a SpaceX
O passo mais ousado veio quando Eric decidiu contactar diretamente a cúpula da SpaceX. Após diversos e-mails sem resposta, ele finalmente conseguiu agendar uma reunião por Zoom de aproximadamente dez minutos com Gwynne Shotwell, presidente e diretora de operações da empresa.
Na conversa, Eric apresentou sua ambição: inicialmente, buscava apoio para conectar 10 das 140 escolas de um distrito amazônico. A resposta superou todas as expectativas. Shotwell explicou que a SpaceX estava lançando o Starlink for Good, uma iniciativa filantrópica da empresa, e que seria possível doar antenas para conectar todas as 140 escolas.
“Falei da minha ambição, ela gostou muito da ideia e quis ajudar”, relatou Eric sobre a conversa com a executiva.
A Conectividade Chegando às Comunidades
A implantação começou a se tornar realidade em novembro de 2025, com a instalação das primeiras antenas na comunidade de Barro Alto, em Manicoré — localidade a quase 30 horas de barco de Manaus. A escola parou por uma hora para receber a equipe e acompanhar a instalação, em um momento descrito por Eric como “muito gratificante”.
Com a conexão estabelecida, alunos e professores ganharam acesso imediato a um mundo de recursos antes inacessíveis: serviços públicos digitais, planos de aula atualizados, ferramentas de gestão escolar, materiais de pesquisa e até recursos de inteligência artificial.
A transformação vai além da sala de aula. Como explicou Cristieni Castilhos, fundadora e CEO da MegaEdu (ONG parceira no projeto): “Quando a conectividade chega na escola, no centro da comunidade, tudo muda. A escola conectada vira a âncora de conexão para a comunidade e ações de proteção social”.
Contexto Mais Amplo: A Starlink na Amazônia
O projeto de Eric Bartunek se insere em um contexto mais amplo de expansão da Starlink na região amazônica. Desde seu lançamento no Brasil em setembro de 2022, a empresa de Elon Musk rapidamente se tornou a líder isolada no mercado de banda larga fixa por satélite na Amazônia Legal.
Dados da Anatel analisados pela BBC News Brasil revelam que, até julho de 2023, a Starlink já tinha clientes em 697 dos 772 municípios da Amazônia Legal (90% das cidades da região). Essa expansão acelerada tem um duplo impacto: enquanto leva conectividade a comunidades historicamente isoladas, também facilita atividades ilegais, como o garimpo, onde antenas Starlink têm sido frequentemente apreendidas em operações policiais.
Vale notar que, em maio de 2022, Elon Musk havia anunciado em conjunto com o então presidente Jair Bolsonaro “o lançamento da Starlink para 19 mil escolas desconectadas em áreas rurais”. Segundo apuração da BBC, essa promessa não saiu do papel, tornando a iniciativa de Eric Bartunek ainda mais significativa como uma realização concreta de conectividade escolar na região.
Os Próximos Passos: Da Conexão à Aprendizagem
Com a conclusão das instalações prevista para meados de fevereiro, Eric já trabalha na fase seguinte do projeto: garantir que a conectividade se traduza em ganhos concretos de aprendizagem.
Para essa etapa educacional, ele conta com o apoio de especialistas como o professor Martin Carnoy, economista da Universidade Stanford especializado em educação, e parcerias com a ONG MegaEdu e o Instituto Escolas Conectadas. Juntos, estão desenvolvendo treinamentos para ajudar os professores a utilizar as novas ferramentas digitais de forma eficaz em sala de aula.
Eric também reconhece que o acesso à internet é apenas o primeiro passo. “Estamos criando um treinamento para ajudar os professores a usar melhor essas ferramentas e aumentar seu impacto em sala de aula”, explica.
O Impacto Além das Antenas
O projeto tem implicações que vão além da educação. A conectividade em áreas remotas da Amazônia pode transformar o acesso a serviços essenciais. Em outras comunidades onde a Starlink chegou, como a comunidade Itaquera no Rio Negro, os moradores ganharam capacidade de comunicar-se em emergências e acessar recursos educacionais online.
Em algumas localidades de Roraima e Acre, a internet estável da Starlink permitiu pela primeira vez o uso de cartões de débito, crédito e Pix, integrando essas comunidades à economia formal. Para comunidades indígenas, como os Yanomami, a tecnologia tem sido crucial para comunicação entre postos de saúde e famílias em áreas isoladas.
Um Modelo Replicável?
A história de Eric Bartunek levanta questões importantes sobre modelos de inclusão digital. Enquanto governos estaduais como Amazonas e Pará fecharam contratos milionários com revendedoras da Starlink para conectar escolas, a iniciativa do jovem estudante demonstra uma via alternativa baseada em parcerias filantrópicas diretas.
O caso também destaca o papel crescente da iniciativa privada — tanto empresas quanto indivíduos — na resolução de desafios sociais historicamente atribuídos ao poder público. Questionado sobre isso, Eric mantém o foco no resultado prático: “Nunca achei que chegaria a esse ponto. A escala acabou sendo muito maior do que eu esperava”.
Lições para uma Geração
Para Eric, que se forma no ensino médio este ano e planeja estudar Economia e Educação nos Estados Unidos, o projeto na Amazônia é apenas o começo. Ele já está envolvido em outras iniciativas, como liderar o clube de investimentos de sua escola e participar do Juntos na Tech, que ensina programação a jovens da Paraisópolis em São Paulo.
Sua mensagem para outros jovens é direta: “Começar pode ser difícil, mas depois tudo fica mais fácil. Quanto mais ‘nãos’ você recebe, quer dizer que está mais perto de um ‘sim’. No fim, tudo vale a pena”.
A trajetória de Eric Bartunek mostra como visão, persistência e parcerias estratégicas podem superar barreiras aparentemente intransponíveis. Em um país marcado por desigualdades profundas, sua história oferece não apenas inspiração, mas um modelo concreto de como a tecnologia — quando guiada por propósito social — pode ser uma ferramenta poderosa de transformação.
Enquanto as últimas antenas são instaladas nas escolas amazônicas, uma nova rede se forma — não apenas de satélites e sinais de internet, mas de possibilidades para milhares de estudantes que, pela primeira vez, poderão aprender sem estar desconectados do mundo.











